Papoula Rubra

Terras Secas
Arthur Boaventura receberá um Prêmio de literatura, mas esta data não é para ele um motivo de comemorações. Angustiado, nesta mesma ocasião, ele decide que nunca mais irá escrever. O dia segue como deve ser, com a naturalidade de todos os outros dias e com as pequenas estranhezas que, também, marcam tantos outros dias. Após retornar da premiação, ele fica preso no elevador que o levaria ao seu apartamento. Acessa o alarme e espera. Pensa e espera. Procura distrações e espera. Fecha os olhos e espera. Quando abre os olhos, se depara com um lugar inusitado: um céu violeta que simultaneamente abriga um sol e uma lua em lados opostos, uma vastidão de terras secas e rachadas amarelo-opacas e uma árvore incomum. Percebe, nesse instante, estranheza ainda maior em si: perdeu a memória e os afetos.

Terras Secas

Sinopse

“Terras Secas” é o romance de estreia da autora Papoula Rubra, publicado sob o pseudônimo Paula Peregrina em 2017. A narrativa acompanha Arthur Boaventura, um escritor que, após receber um prêmio literário, decide interromper sua carreira. Em um dia comum, Arthur fica preso no elevador de seu prédio e, ao abrir os olhos, se vê em um mundo desconhecido, caracterizado por um céu violeta, terras rachadas e uma árvore peculiar. Nesse ambiente inóspito, ele perde a memória e os afetos, iniciando uma jornada de autodescoberta e reflexão sobre sua vida e escolhas.

A autora, Papoula Rubra (Paula R. S. Santos), é psicóloga não atuante, artista visual, pesquisadora e escritora. Nascida em Belo Horizonte em 1989, ela tem uma trajetória que transita entre diversas áreas, incluindo políticas públicas, educação e marketing digital. Sua poética investiga a retroalimentação entre questões político-sociais e afetivo-comportamentais, atravessadas pela relação entre razão e emoção, civilização e natureza.

“Terras Secas” foi publicado pela Cartonera Carioca, um selo editorial que produz livros artesanais em pequenas tiragens, sem fins lucrativos. A obra foi selecionada no Edital Descentra Cultura 2015 de Belo Horizonte, evidenciando seu valor no cenário literário local.

A narrativa de “Terras Secas” mergulha no universo da literatura fantástica, explorando temas como a busca por identidade, a relação do indivíduo com o espaço e a memória afetiva. A ambientação do mundo desconhecido, com suas características singulares, serve como metáfora para os desafios internos enfrentados por Arthur. Sua perda de memória e afetos representa a desconexão que muitos sentem em relação a si mesmos e ao mundo ao seu redor.

Ao longo de sua jornada, Arthur encontra personagens enigmáticos que o auxiliam a reconstruir sua história e a compreender o significado de sua existência naquele novo mundo. Essas interações proporcionam ao leitor uma reflexão sobre a importância das relações humanas e da memória na construção da identidade.

A escrita de Papoula Rubra é marcada por uma prosa poética que instiga a imaginação do leitor, convidando-o a questionar a realidade e a explorar as profundezas da psique humana. “Terras Secas” é uma obra que desafia as convenções narrativas, oferecendo uma experiência literária única que combina elementos de fantasia com uma análise introspectiva da condição humana.

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Terras Secas

Publicação: 2017
Idioma: Português
Editora: Pandorga
Páginas: 208
Capa: Comum
Medidas: 22.6 x 15.8 x 1.2 cm
ISBN 10: 8584422420
ISBN 13: 978-8584422425
OPINIÃO

Intrigante, desconcertante, profundo e reflexivo.

O livro se vale de um protagonista questionável, levemente arrogante e muito analítico, demasiadamente afetado por seus carmas e dilemas, além de cenários abstratos e situações inusitadas que transitam entre o onírico e o concreto, para proporcionar ao leitor uma jornada intensa pelos meandros da mente, despertando reflexões sobre a existência, motivações e, até mesmo, permitindo a alteração de concepções firmadas.

Não é uma leitura leve, é verdade. Por vezes, as citações - sim, o livro é rico em referências - e os conflitos nos pegam de jeito, remexendo o âmago das vulnerabilidades.

Pois bem, Arthur não é o protagonista típico. Pelo contrário, autor premiado e professor acadêmico, já nas primeiras páginas recepciona o leitor com suas opiniões críticas, sua percepção um tanto amarga, mas muito realista e honesta, sobre os relacionamentos amorosos, interações humanas, socialização forçada e o mercado literário que limita o senso criativo, padronizando a escrita, ansiando pela produção de best sellers mornos e bem aceitos pela crítica.

Inclusive, nesse contexto somos introduzidos ao universo particular da personagem. Arthur, a contragosto, submetendo-se às normas sociais que repudia, resignando-se ao seu papel, comparece ao evento de premiação de uma de suas obras literárias. Não lhe agrada o estilo de escrita que foi condicionado a adotar, mas não se pode negar que a homenagem e o reconhecimento, em certa medida, afagam seu ego.

Os devaneios de Arthur no decorrer do evento escancarram a hipocrisia e fragilidade humanas, são uma miscelânea coerente de psicanálise, filosofia e referências literárias que, já de cara, trazem à tona todo tipo de elucubração, instigando aquele sorriso próprio da anuência crítica. Sabem? Aquele sorriso que surge quando situações corriqueiras da vida são questionadas e avaliadas de forma crua, sem romantização, e só podemos concordar.

Aéreo, perdido em seus pensamentos, sem se conectar integralmente com o mundo que o cerca, ignorando intimamente a própria premiação, Arthur revela toda sua complexidade, seus dilemas existenciais, a começar por seu nome, inspirado em Rimbaud, com todo o peso e responsabilidade que isso representa, sobretudo para um autor por profissão e vocação.

A opinião da personagem é balizada por questões pessoais específicas, provocando algumas distorções, por exemplo, juízo de valor que se aproxima perigosamente da misoginia. No entanto, a contextualização permite que o leitor compreenda o posicionamento e até mesmo a intencionalidade por trás deste tipo de abordagem.

Encerrado o evento, satisfeitas as burocracias da socialização e após estender a noite em um bar com velhos conhecidos, Arthur retorna para casa mais leve pelo efeito do álcool, ignorando, em um primeiro momento, os estranhos acontecimentos que seguem. Pequenas descargas elétricas ao tocar no volante, depois na porta do seu prédio, a abordagem incomum de um rapaz desconhecido, o elevador que demora demais a parar em seu andar, um ruído irritante em seus tímpanos e, por fim, o apagar das luzes - escuridão; prenúncios do infortúnio.

Na sequência, abre os olhos. Depara-se com um cenário nunca antes visto. Céu roxo, terreno árido, uma imensidão de terra seca. A memória lhe falha, não se recorda do próprio nome, e já não é capaz de experimentar ou discernir sensações - afetos -, desprovido de emoções, em uma terra estrangeira, na verdade, em uma dimensão estrangeira. Os acontecimentos que seguem são excêntricos, enigmáticos. A leitura se torna densa e, simultaneamente, lúdica. Arthur é submetido a uma jornada intensa, cheia de percalços e dúvidas.

O leitor é transportado para um universo único, algo que remete ao país das maravilhas, com toda sua insanidade e simbologia. Isso mesmo, nós, leitores, somos arrastados com ele em uma infinidade de labirintos. Palavra escrita e pensamentos se mesclam. As vivências de Arthur, em certos momentos da leitura, são postas em segundo plano. A narrativa, a estranheza dos acontecimentos, penetram a mente, expondo nossas inquietações.

Ao final, não é apenas Arthur que renova suas percepções, mas também o leitor. A leitura é pujante. Uma experiência gratificante para aqueles que se propõem a degustar o incompreensível, apreciar o trajeto.

Giovana Abreu

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