O corpo além do corpo é a membrana da minha questão. Nossas emoções e condições mentais, polêmicas em seus diagnósticos e tratamentos, disputadas entre áreas biológicas e psicológicas, são invisíveis, mas sentidas em todos os órgãos.
Graduada em psicologia, acumulei mais experiência como atendida do que como terapeuta, embora mais por psiquiatras do que por colegas de profissão. É que não sabia falar com a língua sobre esse lugar que doía em mim. Não sabia falar do que me transtornava na língua dos médicos, analistas, terapeutas. Não importa o quanto estudasse e mesmo atendesse bem como psicóloga, minha língua se rebelava em dizer o que pode ser ouvido.
Um dia eu escutei em mim que nunca soube ser mulher. Comecei a procurar A Mulher em mim. Tenho corpo biológico de mulher, me sinto mulher e sei que o sou, mas não sei o que é este ser. Esta condição sintetiza uma imensa crise de identidade que desencadeia em certo momento a investigação do meu próprio corpo e da condição de ser mulher, sem saber sê-lo. Sei que outras partilham da minha dúvida, por que são colocadas em dúvida, são mulheres duvidosas e em busca de si. Pensar corpo, condição, existência mulher político-afetiva é o núcleo da minha questão.
Tenho Frida Kahlo como uma inspiração artística e biográfica. Ao fundir sua existência biológica e afetiva com a paisagem, a estética e o imaginário coletivo originário do México, ela rompe com o distanciamento entre mundo interior e exterior. Desse modo, embora a artista não fosse alheia à produção artística do seu tempo, dentro e fora de seu país, percebo sua associação com o surrealismo como um mal-entendido. O movimento influenciado pela psicanálise se pauta no rompimento com uma noção de racionalidade constituída no continente europeu, que separa mente e corpo, pensamento e emoções.
Essa compreensão, contudo, não condiz com todos os povos que foram colonizados e, mesmo após independentes, subordinados à cultural europeia. O que o continente greco-romano-cristão toma por fantástico, irreal e inconsciente, algo escondido a ser cavado, é vivo, presente e real em outras culturas. Assim, o visível e o invisível, o interior e o exterior convivem, não pelo esforço buscado pelos surrealistas, mas por uma perspectiva de mundo distinta.
Entendo que Frida Kahlo investiga a pintura do invisível na experiência real e consciente: dos afetos, da condição de mulher, da herança colonial e sua crise identitária. Todo este abstrato está contido na vida, é sentido no corpo, acontece em um lugar. Para capturar o inacessível aos olhos, a artista inventa uma expressividade própria, a partir de seu corpo e sua cultura, ambos feridos.
A obra As duas Fridas é uma inspiração para esta pesquisa, por abordar a coexistência de aspectos de identidade, personalidade, emoções e comportamentos em um único ser, a partir da multiplicação do autorretrato da artista. O ponto em evidência é o conflito entre a influência da cultura europeia e regional, manifesta no modelo do vestido branco, na pele mais clara, no rosto limpo de buço e maquiagem mais suave da Frida à esquerda, enquanto a Frida à direita veste traje mexicano, maquiagem mais forte, mantém o buço natural de sua genética e a pele mais escura. Se o conflito existe expresso nos elementos perturbadores, como o céu ao fundo e a tesoura que corta uma artéria na mão da figura à direita, manchando o vestido branco e corrompendo o signo de pureza dessa cor, a acolhida das duas existências em si se revela no encontro das mãos, na abertura das pernas (algo subversivo para a figura feminina) e no olhar incisivo que dirigem ao espectador. Há cumplicidade entre elas.
A multiplicação de si como expressão da realidade subjetiva, a coexistência de noções de identidade, modos de ser, afetos e política na constituição de um indivíduo, negando a ideia de unidade ou integridade que extingue a complexidade das existências é um aspecto relevante em minha pesquisa atual. Respondendo a questões e incômodos de outro tempo, território e subjetividades, inspirada em Frida, exploro o autorretrato engajado na expressão do invisível presente na vida no entre figuração e abstração, racional e emocional, físico e psíquico, vigília e onírico, dentre outras dualidades evocadas pelo envolvimento com os experimentos, partindo da experiência pessoal para amplitude da relação com o espaço e as pessoas.