Dos acontecimentos sociopolíticos às especulações sobre a inteligência artificial generativa, tenho a impressão de que estamos vivendo constantemente diante de um filme de terror.
Viver diante de é diferente de viver em, viver um, ou viver dentro. Viver diante de algo é ser espectador, afetando-se passivamente por aquilo. Como assistir a um filme de terror mesmo.
Você reage, grita, diz que faria diferente, se irrita com a falta de atitude dos personagens, sente medo, mas não está vivendo, de fato, nada daquilo. O filme acaba e o medo permanece; pequenos sobressaltos geram pavor.
Mas, diferente da situação de assistir a um filme de terror e depois seguir com a vida, libertando-se daquela sensação temporária, viver diante das telas, das redes sociais, das notícias – na internet ou na TV – tem nos colocado constantemente sob este sentimento.
O sentimento apocalíptico não é novidade na história. Afora a bíblia e outros escritos religiosos, há verdadeiros tratados sobre o fim do mundo (vide Nostradamus). A crença, nutrida pelo medo e pela ignorância, toma ares de verdade irrefutável.
Até o que era para ser crítica se transforma em lugar-comum. A tela escura mistura nossa imagem, como um espelho distorcido, a uma realidade que não é, exatamente, cristalina. Estamos, desde sempre, em um mundo cheio de problemas, mudanças e adaptações.
Não vivemos o pior momento da face da Terra, nem o melhor. Não há passado glorioso em massa pelo qual suspirar. Não há futuro paradisíaco no qual apostar.
A vida acontece. Há coisas terríveis e há plenitude. Há pessoas boas e há pessoas más. E, geralmente, elas são as mesmas.
Os extremos suplantaram o discurso político viciado e transformaram nosso modo de sentir e de pensar.
E é só disso que eu tenho medo.