Papoula Rubra

Para uma amiga perdida: nenhum mundo novo te espera

“Não há beleza poética nas feridas permanentemente abertas, impedidas de cicatrizar por constantes ataques hostis. No entanto, é vão desfazer-se de si na ilusão de que assim não precisará mais lutar. Não há beleza nesta vida que não seja inventada.”

Eu entendo. Quando as coisas estão realmente mal, não há palavras gentis que façam sentido, nenhum consolo acalenta, tudo parece vil e banal. O cinismo toma conta das nossas esperanças, até respirar é pesado, irrita o ruído do ar entrando e saindo inspirando memórias de suspirar. Eu sei que você anda tentando se endurecer mais, mas não vou simplesmente aceitar em silêncio sua tentativa de fazer-se quebradiça para, no próximo golpe, transformar-se em cacos e, quem sabe assim, caber nos espaços limitados que te impõem as circunstâncias.

Aceite! Pessoas como você são mesmo assim: sem lugar. É um elogio da existência. Enquanto tantos pulam de caixa em caixa, você está destinada a voar. É solitário, quanto mais quando te atiram pedras a cada pouso e descansar torna-se impossível. Não há beleza poética nas feridas permanentemente abertas, impedidas de cicatrizar por constantes ataques hostis. No entanto, é vão desfazer-se de si na ilusão de que assim não precisará mais lutar. Não há beleza nesta vida que não seja inventada.

Você sabe, os que nos subjugam loucas chamam loucos tantos diferentes de nós, sempre diferentes deles, quaisquer desviantes orgulhosos em decepcionar obsoletas e infrutíferas morais. Enquanto pessoas se matam por pouco, valores perecíveis, ideais frágeis cheios de significados vazios, enquanto emulam batalhas imunes ao risco de verdade e vestem orgulhosos camisas cheias de suor e sangue alheios, nós preferimos a nudez e a liberdade de não acumular pesos inúteis.

Enquanto cantam em coros gregorianos, nós destoamos agudos líricos e quebramos vidraças somente com a força do nosso tom. Apesar de toda a desgraça que toma o mundo, somos nós assustadoras e perigosas porque não damos bola para a convenção e decidimos viver a nossa própria vida, que a ninguém prejudica de fato. Nos condenam à solidão como cativeiro e nos atingem por não nos conformarmos com o refúgio em guetos, pois não somos feitas desta matéria, não aceitamos menos que o mundo que a todos pertence e não a alguns.

Te imagino agora presa à esta cilada pelo amargor forçado à garganta, encapando sua língua contra qualquer gosto, imobilizando-a. A fadiga de acumular nos anos incessantes lutas simplesmente para existir nos empurra ao fundo de estreitos abismos, dos quais escapamos exauridas no limite da asfixia e, então, como podemos voltar a enxergar o tempo-espaço para reinventar-nos e recomeçarmos sem arrastar os destroços dos nossos fracassos ou mesmo de nossas vitórias poluídas pelo ridículo?

Como persistir em acolher a vida quando descobrimos que não há conforto que nos aguarde? Não, não desfrutaremos dos amores prometidos nos contos a não ser aqueles que inventarmos, abandonaremos e seremos abandonadas, confundirão a essencialidade das nossas metamorfoses com inconstância e nos negarão trabalho, segurança, afeto. Então, eu entendo a sua necessidade de isolar-se ante descobertas tão pouco felizes como estas. Mas eu sei que esse seu calar de agora não é silencio restaurador. Onde quer que você se encolha neste momento, seus gritos chegam aos meus ouvidos reclamando que você não se permite escutá-los.

Nós, ninguém é imune a derrotas tão devastadoras, daquelas que minguam a vida no corpo obrigado a continuar. Eu sei que você está resistindo, mas está tentando fazer tudo sozinha. Essa pode não a melhor opção, nem sempre temos tudo o que precisamos para fazer nossas ataduras. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, assumir as fraquezas não é fazer-se de vítima, aceite sua falha humanidade.

Por sinal, você não seria vítima nem se quisesse, é dessas que mais poderia fazer muito mal ao pior, mas escolhe uma bondade maluca, irrompida da indiferença aparente, espantando as defesas de quem recebe com surpresa o brotar de um sorriso gentil na sua acidez. Não se faz vítima. Certo. Mas o que você é quando simplesmente se retira do mundo? Deformado ou perfeito não há reflexo sem espelho.

Já faz algum tempo que você escolheu não falar mais dos seus problemas, e, assumo, há uma beleza misteriosa nesta sua decisão de estocar lamúrias para construir trágicas cidades submarinas. Disso eu não critico absolutamente nada, sei que caso falasse não seria nem tão diferente assim, como concluímos certa vez, o desabafo repetitivo sem rastros de solução pode embaçar tudo o mais e transformar-se hábito, um  involuntário traço de caráter. Todavia, seus diálogos mentais te traem e no distanciamento de intervenções amigas apenas te drenam anima. Não se engane tentando me enganar com a frivolidade lacônica do “está tudo bem”.

Quando você finalmente decidir voltar, como já sabe, não haverá nenhum abraço te esperando – desses que você insiste fielmente em fantasiar; nenhuma surpresa grande acontecerá a não ser vinda de você – desses incômodos de ser pessoa que faz mais do que recebe. Também não irão te procurar os seus amores perdidos, e menos provável que te encontrem amores novos – a exploradora de novos territórios sempre foi você, sempre atraindo um tanto, mas procurando por algo específico, sempre decidida a não permanecer até encontrar.

Ainda, as pessoas não terão se tornado mais sábias, nem mais gentis – melhor mesmo é preparar-se para o contrário, o mundo anda errado demais, mas, você sabe: persistirão em dizer que a errada é você. Continue a brincar com isso, à maneira de rebate injúrias de uma criança mimada – é como as coisas são.

Aceite o que dói porque é fato, entretanto, não se esqueça: apesar disso, você não precisa sangrar sozinha. Somos todas muito individualistas e ensimesmadas no que damos a ver, mas a verdade esquisita é que, por essa escolha absurda de sermos inteiras é que sabemos valorizar todas as iniciativas e compadecer com as dores de quem se machuca por não aceitar usar coleiras e uniformes.

Tentar entender a liberdade possível e vivê-la tem dessas, mas não é agora, depois de tanto, que você se enganará achando que estes que andam por aí plastificando sorrisos e discursos de superação são melhores do que nós. Se o seu sofrimento estiver elevado ao ponto de semelhantes alucinações, deixe que alguém te chacoalhe. Pessoas que te amam, não apesar, mas exatamente pelo que você é: pessoa perdida.

Perdida de uma ordem lamacenta que beneficia as piores personalidades. Perdida da injustiça atrasada que ainda acha mais importante vestir togas e títulos do que efetivar-se. Perdida dos relacionamentos de conveniência que condenam vidas inteiras a status cochos. Perdida das regras sem sentido que buscam perturbar a vida privada para abafar a negligência aos interesses coletivos em favor de poucos. Perdida das discussões sem fim, sem finalidade, sem atitudes, que apenas incitam e camuflam emoções mal resolvidas, nos distraindo do que realmente importa. Perdida de querer agradar. Perdida de achar que nunca tropeçará nas próprias convicções.

E aí é que nos perdemos mais querida. Somos demasiadamente apaixonadas para sermos firmes. Endurecer-se te furtará de você. Deixe ser. Faça-se densamente flexível. Não se imponha tamanha perfeição. Volte para o mundo. É ele que te espera ansioso, mesmo que não manifeste isso em um abraço, em um amor, em uma surpresa boa qualquer. Volte para o mundo, é ele quem está precisando de um abraço seu…

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